Policial

O trabalho e os dias, crônica do tamborilense Pedro Salgueiro.

Eis a crônica de Pedro Salgueiro, um grande intelectual tamborilense, publicada na Edição do Jornal O POVO deste sábado (20/06).

2006va0310

Sempre que retorno ao meu torrão natal, nos ermos sertões de Tamboril, nunca deixo de visitar os lugarejos onde fui criança: as croas do Rio Acaraú e do Riacho do Gado, a Barra da Oiticica, o açude do Carão… Percorro veredas escutando o zunido das cigarras, o coração aos pulos mas apascentado; devaneio naquele imenso país da infância. Aqui e acolá uma casinha de taipa, de raro em raro alguma alpendrada, com o nosso peitoril sertanejo dando boas vindas. Solitária, arrodeada de criações, porcos fuçavam pés de parede, galinhas ciscando o monturo, um que outro menino correndo em danação. A memória dos ouvidos me traz o som dos chocalhos (ainda hoje, acordo de sonho pesado com os badalos tinindo no escuro, olho então assustado ao derredor e não consigo mais dormir).

Na época de inverno era uma alegria o bater de enxadas com martelos sobre pedaços de trilhos na frente de casa, trabalhadores conversavam alto, contando pilhérias, naquele ritual que antecedia ao sagrado dia de trabalho. As mulheres preparavam o desjejum, que enrolavam em pano cruzado com um nó bem laçado para que não esfriasse: os mais fartos levavam farinha, carne assada, ovos; os mais pobres apenas se enganavam com quase nada, arriscavam uma melancia nas capoeiras. Dependurada na foice uma cabaça d’água envolta num molambo molhado.

A sala da frente, também o quarto de dormir, e até os cantos da cozinha, serviam para guardar enormes camburões de gêneros; não havia família, rica ou pobre, que não pensasse nos anos futuros, possíveis de seca, deixando uma pequena parte da safra reservada para replantios. Fechavam hermeticamente com ceras de abelha os depósitos, para evitar umidade, gorgulho… Aqueles imponentes reservatórios, ou ainda as latas de querosene (mais leves, fáceis de manusear) eram objetos sagrados, assim como a prateleira de tábua larga quase no teto (mode os ratos e as mãos buliçosas dos meninos) para botar os queijos, daqueles bem grandes, que de tão cascudos só ferviam junto com o feijão dos fins de semana.

Mas esse ritual de trabalho, que alumiava os dias, que regava a seca terra com o suor de todos, que movia aquele mundão interiorano – e que aos olhos do menino parecia tão harmônico, quase eterno –, foi aos poucos desaparecendo: as casinhas jazem hoje vazias, com seus esqueletos de varas no meio do mato (que impiedosamente invade o terreiro, o caminho do roçado, a vereda que dá na parede do açude; até o curral está coberto pelo melão de são caetano, que seca e enverdeia com a mínima mudança do clima).

Os homens já não batem enxadas, não amolam mais foices, nem conversam em algazarra pelos terreiros antes de cada sagrado dia de trabalho; hoje fogem em procissão rumo aos povoados e periferias das cidades maiores: tomam cachaça, circulam pelos botecos falando da vida alheia, de futebol e política, esperando pacientemente pela eterna esmola do governo; as mulheres, sempre de unhas bem pintadas, assistem às novelas, até esqueceram como cozinhavam as ovas da curimatã, mas – em compensação – aprendem com facilidade os segredos do celular de última geração, sintonizam com maestria a televisão na antena parabólica. Os meninos, esses sofrem menos, não carregam mais água em jumentos, sequer matam passarinhos: preferem segurar nas fundas de suas baladeiras outras pedras… bem mais leves.

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