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Ídolos do Basquete Cearense visitam menina de 11 anos praticante do esporte em Crateús.

Na cama, enrolada ao lençol, Ivily Kayane, de 11 anos, parecia acordar de um sonho. Dormiu abraçada à boneca favorita. Ao lado, o celular e um bloquinho de papel. Um bloquinho de anotações com a foto de Felipe Ribeiro, Rashaun McLemore e Davi Rossetto, atletas do Basquete Cearense, na capa. Ídolos da pequena. Mas antes de continuarmos a contar essa história, é preciso voltar no tempo, momentos antes deste episódio, quando a única menina a jogar basquete no município de Crateús (distante 288 km da capital Fortaleza) recebeu a visita de jogadores do Basquete Cearense, o Carcará, único representante do estado no NBB.

Imagine, pois, um conto de fadas. O dia de Ivily certamente foi melhor.

O quarto de Ivily não é grande. Ao entrar, percebe-se logo a paixão da menina pelo basquete. As bolas que o pai usa para dar aula de educação física ficam no quarto dela. Uma pequena cesta também. Na parede, em destaque, está afixada uma cartolina com várias fotos da fã com os ídolos do Carcará nos jogos em que conseguiu ir a Fortaleza para assistir. Rashaun e Felipe Ribeiro estão nos registros.

Uma semana antes, Ivan Pereira enviou uma mensagem ao Basquete Cearense através das redes sociais. O acadêmico em educação física explicou que Ivily era fã do time, amante da modalidade e única menina que jogava basquete em Crateús, no Sertão cearense. Por isso, não tinha com quem jogar. Para realizar os sonhos da filha, Ivan passou a treinar apenas com ela, sozinhos, em lugares que não reuniam as condições ideais para a prática do esporte. Mas a causa era nobre.

– Desde os nove anos ela ia para a quadra comigo. Eu não tinha com quem deixar ela em casa. Eu ia treinar com os meninos, ela ficava batendo bola lá fora. Aí ela despertou interesse pelo esporte. E comecei a passar alguns fundamentos para ela. Vi que ela gostou da modalidade – explicou o pai.

A visita

Foi assim, através das redes sociais, que o ala/pivô Felipe Ribeiro ficou sabendo a história da jovem e resolveu visitá-la. Com a equipe do Carcará, no próprio carro, levou o americano Rashaun, o fotógrafo Stephan Eilert e o gerente de comunicação e marketing do time, João Costa. Cinco horas de viagem rumo ao sertão cearense por uma estrada que nenhum dos quatro jamais havia explorado antes. A surpresa seria ainda maior.

Com direito a galinha caipira no almoço, o quarteto foi recebido na casa de Ivily, que não esperava a visita. Na residência, além da jovem, vivem apenas pai, mãe, e três cachorros. Para além da visita, os presentes. Um deles, para lá de especial. Fã de Hortência, a jovem de Crateús recebeu um vídeo da Rainha do basquete brasileiro. A emoção da criança contagiou os adultos.

– A gente levou um vídeo para ela com uma mensagem da Hortência. Na hora, ela começou a segurar mais forte a minha mão, colocou o sentimento para fora e apertou mais ainda a minha mão. Ela chorou muito. Mal conseguia falar. Eu nunca tinha visto o Rashaun chorar, por exemplo. Ele começou a chorar também. Foi indescritível. Quando voltei para casa, a primeira coisa que eu falei para a minha mulher: “se algum dia, alguma coisa de bom acontecer na vida da minha filha, vai ser por causa desse momento, desse dia, dessa visita” – emocionou-se Felipe Ribeiro.

Visita feita, os jogadores foram à escola de Ivily. O que deveria ser uma passada rápida, movimentou a escola inteira. Fotos, vídeos para postar nas redes sociais, conversas, risadas. Ivily estava em casa. Mais ainda com a presença dos ídolos, que acabaram virando muito mais.

Pai e filha

A paixão pelo basquete é hereditária. O pai dá aula de várias modalidades (futebol, futsal, handebol…) na escola do município e de regiões vizinhas. Mas a dedicação maior é para o basquete. Muito por conta da filha. Ele tem o sonho, inclusive, de implementar um projeto social para ampliar o alcance da modalidade na região. Tudo de graça. Mas a ausência de apoio dificulta os planos do futuro profissional de educação física.

– Tudo começou nessa quadra do colégio. É o único espaço que a gente tem. Hoje eu quero desenvolver mais o basquete muito por causa da minha filha. Quero dar para essa garotada uma oportunidade que eu não tive quando criança. O projeto de escola aqui não tinha basquete. É uma modalidade meio esquecida na cidade, sabe. Compramos a armação, tabela, conseguimos o aro. Com a ajuda de algumas pessoas, instalamos tudo e começamos a usar – explicou Ivan.

Aos 11 anos, Ivily já disputou um torneio Sub-14 num time feminino de uma cidade vizinha. O time terminou a competição em segundo lugar. Mas as condições financeiras da família impedem que ela siga fazendo isso, viajando para outros municípios. Portanto, os treinos são improvisados.

– Meu pai sempre me leva aos sábados e aos domingos para treinar. Enquanto não começa o jogo dos meninos, eu fico batendo uma bolinha de vez em quando – pontuou.

Ivily é tímida, mas não tem medo de sonhar. Idealiza, no futuro, um time feminino do Basquete Cearense. Quem sabe? Aspira, um dia, chegar à WNBA, liga feminina de basquete dos Estados Unidos. Ao fim da visita no colégio, gravou um vídeo institucional a pedido do Basquete Cearense e encerrou dizendo.

– O basquete é a minha vida. Espero que gostem desse vídeo – disse.

Voltou para casa e, antes de dormir, separou a boneca preferida. Postou o vídeo que recebeu da rainha Hortência nas redes sociais e, para se sentir ainda próxima da visita mágica dos ídolos, dormiu abraçada ao bloquinho do Basquete Cearense. O pai registrou o momento e mandou para o time, agradecendo. Uma lembrança física de um dia feliz para uma criança sonhadora. Para muitos, pode até parecer pouco. Para Ivily, valeu muito mais do que qualquer cesta de três pontos.

Veja vídeo completo dessa aventura, logo abaixo.

(Com Globo Esporte)

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