Regionais

Os luzeiros do céu – uma crônica do Tamborilense Pedro Salgueiro.

Sempre quando vou ao cemitério São Miguel de Tamboril, lembro (com tristeza) que hoje tenho mais amigos dentro do que fora de seus muros. Recordo de uma época em que os mortos eram todos desconhecidos, de outras famílias, de outras cidades, de outros círculos de amizades… Mas as “coisas” se inverteram, quase todos os que hoje se vão têm um tantinho que seja de ligação comigo, seja por laços sanguíneos, afinidades de geração, amizade (mesmo as mais distantes, partilhadas com os irmãos e outros amigos).

Ultimamente virei um obituário ambulante, a contabilizar perdas irreparáveis; as dos familiares, que começaram dolorosamente pelo meu pai (mas mais longinquamente com a tia Mocinha, que tinha uma pequena banca na feira e vendia anéis e pulseiras), parecem não querer parar; as dos amigos então nem se fala, vão assustadoramente em progressão aritmética; sem contar com as das pessoas que, mesmo não sendo tão próximas, eu admiro muito.

Dos colegas escritores muitos me marcaram a “ferro e fogo”, como o mestre Moreira Campos (que tive o prazer de conhecer em seus últimos dias) e sua querida filha Natércia, o quieto Francisco Carvalho, o irreverente (e bendito/maldito) José Alcides Pinto, Gerardo Mello Mourão e seu saber enciclopédico, o simpático José Telles, o coração imenso de Audifax Rios de gentilezas, o querido zombeteiro Airton Monte, o insubstituível Nilto Maciel (que saudade, amigo, até do seu escárnio de malícias mil; às vezes ainda me flagro querendo ligar pra você no meio da tarde para contar um novidade, ou seria fofoca?… O jeito foi apagar de vez seus telefones, eliminar seus e-mails).

E para fechar minha tristeza, ainda não cicatrizada pela perda do Christiano Câmara e seu museu de afetos, nos deixou órfãos o querido Neno Cavalcante – Que choque eu tive ao saber de sua morte, amigo!

Mesmo tendo encontrado pessoalmente apenas uma vez (num lançamento do livro de Lucíola Limaverde na Adufc, quando Raymundo Netto nos apresentou e você foi de uma simpatia contagiante), você É!… daquelas pessoas que aprendi a gostar (e admirar) desde as leituras de sua coluna no Diário do Nordeste, sua saudosa TV Neno, seus impagáveis bordões (É o novo!!!…), suas “pastilhas” críticas (às vezes impiedosa mas sempre justas); que bom que sua lembrança sobrevive na Biblioteca Neno Cavalcante, ali na Comunidade das Quadras, inaugurada pelo seu inestimável amigo Ronaldo Salgado.

Admirava-o – admiro-o – acima de tudo pela sua independência de pensamento, pela sua coragem de dizer o que lhe tocava (até pelo seu inveterado brizolismo, a quem foi sempre fiel); mas acima de tudo por ter optado em ser um cronista crítico quando seria muito mais fácil ser um triste colunista social de clube grã-fino, a tecer loas a essa burguesiazinha insossa e brega; quando seria muito mais fácil ser um reles jornalista carreirista e gastar sua vida e talento a lamber os pés dos ricos cafonas dessa terrinha de muros baixos.

Sei que você é mais que se juntou a essa imensa turma boa que troca as infinitas luzinhas do céu!

(O POVO Versão Impressa)

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