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Estiagem mantém Açude Carão sem água há cerca de 6 anos

“É triste não ter água em casa. O cacimbão mais próximo de onde eu moro fica a mais de um quilômetro. Muitas vezes tenho que comprar água pagando caro se quiser manter as panelas no fogo, a casa limpa e os animais saciados”. É meio-dia na casa da agricultora Eveline Santos (46), moradora da comunidade de Córregos, em Tamboril, região Norte do Estado. No velho fogão a lenha, as panelas borbulham. O almoço está quase pronto. O cheiro do feijão enche a pequena cozinha e já dá água na boca. Nos dois potes de barro, a pouca água de beber é utilizada com parcimônia pela família de três pessoas que moram nas proximidades do Açude Carão, único reservatório que abastecia a cidade, e que agora está seco.

Pouca chuva

Eveline possui duas cisternas, uma delas de calçadão, que capta a precipitação que cai sobre uma calçada de cerca de 210 metros quadrados e escoa para o reservatório, ao lado da casa.

O equipamento tem capacidade de armazenamento para 52 mil litros. Quando o calçadão transborda, a água que sobra vai para um barreiro, onde serve de fonte para os animais e plantas. Mas sem uma gota de água fica difícil manter a rotina de tarefas diárias. As chuvas da pré-estação não têm sido suficientes para mudar o atual cenário de desolação do Município, um dos mais atingidos no Ceará pela estiagem dos últimos anos.

Antes, a família da agricultora abastecia a cisterna com água da Operação Carro Pipa. Há cerca de quatro meses, o programa reduziu o atendimento pela metade no Município. A diminuição afetou a família de Eveline. Água por lá, só se for comprada. E custa caro. “São cerca de R$ 160, ou até R$ 220 que temos que desembolsar pela carrada de água, por mês. E só economizando muito é que conseguimos ter água por 30 dias. E ela serve para tudo: banho, consumo, lavagem de roupa e o cuidado com os animais. Todos nós estamos sofrendo. Existe o projeto para a escavação de um novo poço aqui nos Córregos, porque o que tinha secou, mas até agora não saiu do papel”, lembra a agricultora, enquanto prepara a mesa do almoço.

Tal projeto se refere ao reforço no sistema de abastecimento de água, parceria entre o Município e o Governo Federal, orçado em pouco mais de R$ 124 mil. Iniciada em maio do ano passado, a obra passou do prazo de entrega, marcado para dezembro de 2018.

Segundo Gildo de Moura, presidente da Associação dos Moradores de Córregos, “no momento, só aguardamos esse poço. Não temos outra alternativa de abastecimento já que, no ano passado, das 20 famílias beneficiadas, apenas 10 se mantiveram com o atendimento de oito mil litros de água para todos os afazeres. O projeto foi iniciado, mas até hoje não avançou”, lembra Gildo de Moura.

Açude

A primeira sensação que se tem ao olhar para o Açude Carão, na atual situação em que o único reservatório de Tamboril se encontra, é de um profundo vazio. Os 26.230 milhões de metros cúbicos foram transformados em uma terra seca, onde proliferam arbustos. Os urubus sobrevoam o lugar com frequência, reforçando ainda mais o aspecto de abandono. O Carão está no último grau de gravidade relacionada aos reservatórios da região Norte, da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), ao lado do Carmina (Catunda) e do Farias de Sousa (Nova Russas). Segundo Bartolomeu Almeida, gerente regional da Cogerh, “a situação de muitos açudes da Bacia do Acaraú nos preocupa muito. Do total de 15, temos 10 entre crítico e muito crítico, ou seja, abaixo dos 30%. Esperamos que as próximas chuvas possam ajudar a alcançar, pelo menos, algo em torno de 50% de volume em alguns casos”, pontua.

Contraste

O desejo de Bartolomeu Almeida, no entanto, tem que ir além. Historicamente, a cidade de Tamboril não segue os padrões de chuva do Estado. No ano passado, por exemplo, diversas barragens tiveram aporte substancial com as chuvas do primeiro trimestre, mas o Açude Carão não obteve aporte de água. “Precisamos de um inverno vigoroso. Se chover só de forma espaçada, não adianta, o açude não vai encher”, reconhece, com lamento, o agricultor José Custódio Sobrinho Pena.

A seca severa acabou com a pesca no açude, reclama Cícero Rodrigues, ligado à Associação de Pescadores. “Somos 60 pescadores cadastrados. Mas sem o peixe, todos tivemos de conseguir outro meio de vida. A maioria foi para a agricultura, outros trabalham como pedreiros ou fazem pequenos serviços para sustentar a família”, explica, enquanto olha para o açude, que segue tomado pelo mato e também um pequeno roçado de milho.

A cheia no açude é possível apenas na memória. A dona de casa Maria Lícia Castro conta que, além da benfeitoria para o abastecimento da cidade, o Carão era “ponto de lazer e diversão”. Do passado, ficou apenas o saudosismo. “Eu me sinto triste, faz anos que não vemos essa imagem”.

Poços

Para o secretário de Agricultura e Recursos Hídricos de Tamboril, a construção de poços tem ajudado a minimizar o impacto causado pela estiagem no Município. “Apesar do carro-pipa ter reduzido pela metade as 12 rotas de atendimento na zona rural, por conta de escassez de recursos, segundo o Governo Federal, ainda mantemos o reforço dos poços. Mais de 50 deles dão cobertura à sede e distritos. Sobre o poço de Córregos, a mudança de gestão provocou essa demora, assim como a burocracia relacionada ao projeto, mas temos nos esforçado para torná-lo realidade”, afirma o secretário Wilson de Sousa sobre as ações implementadas para manter o Município abastecido. Há muito, a falta d’água virou um dos principais assuntos da rádio local.

“Essa pauta é quase diária”, conta o radialista Manuel Sales, e complementa. “Os relatos de pessoas que se desfizeram de seus rebanhos, ou compram água para sobreviver têm sido constantes. Este é mais um ano um que aguardamos um inverno que nos tire dessa situação”.

(Diário do Nordeste)

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