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Órgãos meteorológicos divergem quanto à previsão para pré-estação

O fim do ano é um período de grande ansiedade para o sertanejo. A vida – e a sorte – dessas pessoas depende do volume de água que cai do céu nos períodos da estação chuvosa (fevereiro a maio) e pré-estação, que começa em três semanas. Diante dessa proximidade, dois institutos de previsão climática apresentaram prognósticos para os meses de dezembro e janeiro. No entanto, não há consenso nas previsões.

O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos – CPTEC/Inpe prevê chuva abaixo da média histórica. Já o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) aponta ocorrência de precipitações dentro da normalidade. A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), por sua vez, não apresenta prognóstico para o período. O meteorologista do órgão, Raul Fritz, esclarece que “os modelos apresentam sensibilidade pequena para esse período, pois os sistemas meteorológicos que atuam nesses meses (Vórtices Ciclônicos e Cavados) são de previsibilidade de curto prazo”. Diante disso, segundo o especialista, as previsões tendem a não ser tão assertivas.

Esperança

O olhar antecipado sobre a pré-estação é importante pois os reservatórios estratégicos e também os pequenos e médios açudes que abastecem cidades estão secando no sertão cearense. Nas cisternas a água igualmente se aproxima do fim.

“Quanto mais cedo a chuva vier e com intensidade, melhor será para o sertanejo”, observa o secretário de Agricultura de Iguatu, Edmilson Rodrigues. Ele explica que só com chuvas consideráveis a situação de criticidade pode mudar. “O lençol freático baixa nesse período do ano e a chuva realimenta esse sistema, favorecendo o abastecimento por meio de poços”, acrescentou.

Atualmente, conforme dados da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), dos 155 açudes monitorados pelo órgão, 84 estão abaixo dos 30%, 23 estão no volume morto e outros 13 são considerados secos. Apenas dois (Germinal e Jenipapo) possuem volume superior a 90%. O Castanhão, maior açude do Estado, está com apenas 3,64% do seu volume máximo.

Precipitações

De acordo com dados da Funceme, a média histórica de precipitações para o período (dezembro e janeiro) é reduzida. O bimestre novembro/dezembro tem média de 37.4 milímetros e o mês de janeiro, por sua vez, tem volume médio em torno dos 98 mm. Já se considerado o trimestre – que vai de novembro a janeiro – o esperado é de 136.1 milímetros.

Na pré-estação chuvosa, no entanto, algumas regiões tendem a ser mais beneficiadas, como é o caso do Cariri cearense. O meteorologista Raul Fritz justifica que a “região é beneficiada indiretamente pela formação de sistemas que chegam à altura da Bahia, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), trazendo instabilidade (chuva) para o sul do Ceará”.

Especialistas apontam ainda que nos meses de dezembro e janeiro costuma também ocorrer a formação de dois fenômenos importantes, os Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis e os Cavados. Ambos, com incidência na parte superior da atmosfera, costumam trazer precipitação para o Estado. No entanto, “são sistemas que não têm previsão de longo prazo”, ressaltou Fritz.

A climatologista do Inpe, Juliana Anochi, reforça que o próximo trimestre não é de significativas chuvas no Ceará. “É um período de estiagem”, frisou. “Em janeiro, vamos nos reunir com a Funceme, Inmet e analisar as condições climáticas e definir o primeiro prognóstico para a quadra chuvosa de 2020”, disse.

Neutralidade

O Inmet e o Inpe entram em concordância ao analisarem a temperatura da água superficial, que é de neutralidade no Oceano Pacífico Equatorial. Para ambos os especialistas, no próximo ano não deverá ter a atuação do fenômeno El Niño, cujos efeitos são aumento das chuvas nas regiões Sul e em partes do Sudeste e do Centro-Oeste. “Sem episódio de El Niño ou de La Niña”, pontuou Morgana Almeida, chefe da unidade de previsão de tempo, do Inmet no Nordeste.

A climatologista Juliana Anochi também afirmou que a formação de El Niño foi desconfigurada. “Não é mais ativo, o quadro atual é de neutralidade”. Porém, devido às mudanças de temperatura da água no Oceano Atlântico Sul Equatorial serem mais rápidas, só será possível uma análise mais precisa nos próximos meses. “Só a partir do fim de dezembro ou início de janeiro teremos uma definição melhor”, pontua Morgana Almeida.

Para favorecer a quadra chuvosa no Ceará, o cenário ideal é a ocorrência do que os meteorologistas chamam de dipolo do Atlântico, ou seja, a parte Sul mais aquecida do que o Norte para atrair a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), que é uma larga banda de nuvens e o principal sistema que traz precipitações entre fevereiro e maio para o Ceará.

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