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No Ceará, 49 mil pessoas estão na fila de espera por avaliação cirúrgica

A espera já chega a ultrapassar o período de 12 meses. E assim, a esperança de que o pequeno João Miguel – de apenas um ano de idade – realize uma cirurgia reparadora no abdome vai se esvaindo junto à família. Assim como ele, o drama de quem depende de um procedimento cirúrgico eletivo pelo Sistema Único de Saúde (SUS) atinge milhares. Dados da Secretária da Saúde do Ceará (Sesa) apontam que pelo menos 49 mil pessoas ainda esperam, hoje, por uma avaliação no serviço estadual.

Isso representa o número de pessoas registradas no sistema para análise de um médico especialista, que deverá confirmar ou não a real necessidade de o paciente passar por uma cirurgia, segundo explica o coordenador da Central de Regulação do Estado, doutor Mozart Rolim. Pessoas que já passaram por essa análise e estão na fila para se submeterem a algum procedimento, diz ele, somam cerca de 8 mil.

A reportagem tentou acesso ao número de pessoas na espera por cirurgias em Fortaleza, mas até o fechamento desta edição, a informação não foi repassada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS).

As maiores demandas são para cirurgias do aparelho digestivo, órgãos anexos e parede abdominal; cirurgias do sistema osteomuscular; do aparelho geniturinário; além dos procedimentos ortopédicos e traumatológicos. Os procedimentos eletivos são os de média complexidade, que não possuem caráter de urgência.

No caso do pequeno Luiz Miguel, o procedimento esperado é para solucionar a persistência do úraco – estrutura que conecta a bexiga à cicatriz do umbigo do bebê e que, em casos raros, permanece após o nascimento. Segundo a mãe dele, a costureira Maria Cleane Carvalho, 32, os prejuízos à saúde do filho são diários e crescentes. “Fica saindo secreção e urina pelo umbigo dele, como se o cordão umbilical não tivesse cicatrizado. A cirurgia é necessária pra desobstruir. Agora que ele começou a andar, sente muita dor, inflama, coça muito. E ele tem febre com muita frequência. Já teve de 40 graus”, descreve Cleane, que toda noite precisa “fazer compressa de água gelada” para amenizar as dores da criança.

Sem condições financeiras para procurar a rede hospitalar privada, nem psicológicas para seguir esperando o procedimento, a costureira iniciou uma “vaquinha” pelas redes sociais para tentar arrecadar o valor necessário para pagar uma equipe médica: R$ 15 mil. “Disseram que a demora é porque toda cirurgia do Albert Sabin foi pra Justiça devido à demanda e à demora. Ligo um dia sim e dia não pra saber quando isso vai acabar”, desabafa.

Após ficar internada por uma crise na vesícula, a manicure Leidiane Paulo, 31, teve a ciência da necessidade da retirada do órgão por meio de procedimento cirúrgico. No entanto, ela sequer integra a estatística oficial de pessoas na espera, diante da total falta de perspectiva. “Eu não coloquei meu nome no sistema pois o próprio cirurgião disse que seria uma sorte muito grande conseguir, que o melhor seria arrecadar o dinheiro para pagar pelo procedimento”, afirma.

Na análise dos números gerais, doutor Mozart Rolim reconhece se tratar de uma fila muito acima do esperado, devendo o Estado traçar estratégias de celeridade nos processos. Por outro lado, destaca o aumento do número de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS nos últimos anos no Ceará, passando de 31.444 em 2017 para 39.947 no ano passado, crescimento de 27%.

“A gente quer ver se ultrapassa esse número em 2020. Teoricamente, dentro de um ano, estamos querendo operar em torno de 40 mil pessoas, o que não é nenhum absurdo muito grande. É lógico que a gente precisa dar mais celeridade, de uma organização um pouco maior, porque não é só operar, vai desde a avaliação até a linha de cuidados por completo”, afirma. Conforme dados da Sesa, nos 20 primeiros dias de janeiro, foram realizados 1.850 procedimentos no Ceará. Além de mais recursos financeiros, um dos maiores desafios para otimizar o processo, conforme aponta o coordenador da Central de Regulação do Estado, está na ampliação dos centros especializados, especialmente nos municípios do interior.

“Grande parte dessas cirurgias são especializadas. São ortopédicas, traumatológicas, urológicas, otorrinas e não se opera em qualquer canto. Vesícula, por exemplo, você consegue operar com cirurgião geral, num centro menor”, explica.

Recursos

No início do mês, o Ministério da Saúde anunciou o repasse de R$ 250 milhões para a ampliação do acesso de pacientes às cirurgias eletivas realizadas no SUS, sendo R$ 10,8 milhões destinados ao Ceará.

O recurso foi anunciado como incentivo aos municípios para zerar a fila de espera e diminuir o tempo daqueles que aguardam por procedimentos agendados. Na lista, estão 53 procedimentos, como catarata, varizes, hérnia, vasectomia e laqueadura, além da cirurgia de quadril e joelho, entre outras com uma grande demanda reprimida.

No entanto, para o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Dr. Edmar Fernandes, o montante é insignificante para acabar com a fila de espera. “Temos uma projeção que para cada procedimento feito existam dez sendo aguardados. Esse dinheiro, apesar de parecer grandioso, não consegue zerar sequer uma categoria. Em traumatologia, por exemplo, o valor de uma prótese vai de R$ 5 mil à R$ 15 mil. Talvez seja o suficiente para diminuir a espera por cirurgias oftalmológicas, mas, ainda assim, R$ 10 milhões é muito pouco”, avalia.

O investimento será disponibilizado no orçamento dos municípios por meio do componente Fundo de Ações Estratégicas e Compensação (Faec), e somente liberado para os gestores após a apresentação de produção executada no sistema de informação do SUS. “Foi disponibilizado por meio da portaria 3.932, que tem uma série de restrições. Não é simplesmente aplicar o recurso e sair operando, ela é cheia de detalhes técnicos que às vezes dificulta o uso dos recursos pelos próprios municípios”, explica o Dr. Mozart Rolim.

Essa divisão entre as localidades, conforme acrescenta, acontece por meio de pactuação na Comissão Intergestores Bipartite (CIB). “O secretário da Saúde quer que a gente discuta alguma estratégia para ajudar os municípios a utilizar esses recursos”, conclui Rolim.

(Diário do Nordeste)

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