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Conheça a história do Gari do município de Crato, interior do ceará, que concluiu doutorado e atua como professor

Do lixo coletado nas ruas do Crato, o gari Cícero Rodrigues Ferreira desenvolveu um hábito pouco comum para seus colegas de trabalho: os livros encontrados em sacolas e caixas de papelão ele guardava para estudar. “Sempre procurei estudar”, garante. No final do ano passado, veio a recompensa de nunca desistir: o diploma de doutorado em Teologia. Há quatro anos, também atua como professor.  

O mais velho de cinco filhos do casal Vicente e Marlene, “Ferreirinha”, como é apelidado pelos amigos, concilia o trabalho na limpeza pública com as aulas ministradas em faculdades locais. Só que até chegar até lá, passou por muitas dificuldades.  

De infância pobre, morando numa casa de apenas um cômodo no bairro Alto da Penha, dividida com quatro irmãos, Ferreira teve incentivo para estudar, já que seus pais não tiveram a mesma sorte. Sempre estudando em escolas públicas, sua disciplina preferida era Ciências, contudo, o inglês despertou seu interesse por causa do cantor jamaicano Bob Marley. “Aprendi um pouco e fui professor secundário de inglês básico”, conta.  

Aos 18 anos, conseguiu seu primeiro emprego trabalhando na coleta de lixo de Crato. Foram cinco anos com expediente de 5h até o fim da tarde. De noite, assistia as aulas para concluir o Ensino Médio. Ainda assim, chegava em casa quase meia noite e ainda se dedicava aos estudos e trabalhos escolares. Às vezes, não ia para aula, cansado.  

Após concluir o Ensino Médio no ano 2000, largou os estudos e se dedicou ao trabalho de gari, onde ingressou através de concurso. Evangélico, em 2015 ingressou no seminário para estudar Teologia. Foram mais de três anos de aulas, que depois foram validadas como bacharelado pela Facel. “Sempre gostei de Teologia Sistemática, que vai organizando os pensamentos” explica Ferreirinha.   

Depois de cinco anos nas ruas, varrendo e recolhendo lixo, hoje cuida da parte administrativa, emitindo ofícios, memorandos, fazendo registro de horas-extras. Essa “promoção” foi importante nos seus estudos, pois, após conseguir o diploma de Bacharel em Teologia, que ostenta com orgulho no seu escritório. 

Através do Ensino à Distância (EAD), iniciou o mestrado em Teologia. Com cinco horas de estudo por dia, conseguiu concluir as 18 disciplinas e conquistou seu diploma. A partir daí começou seu trabalho como professor. Dentre as disciplinas que oferta está o Grego Instrumental, idioma que aprendeu sozinho.  

“Isso nasceu de uma necessidade. O Novo Testamento foi escrito em grego. Como sou professor, tinha que entender os escritos originais. Foi aí que tive vontade de estudar grego. Eu aprendi só. Comprei livros de gramática. Se você aprender o alfabeto, vai embora. Se eu pegar um texto do Novo Testamento leio tranquilamente”, exalta o gari. Além do inglês e do grego, Ferreirinha compreende e fala um pouco de hebraico.  

A partir do grego, também iniciou sua pesquisa no doutorado, que começou há dois anos e meio e concluiu, também à distância, no fim do ano passado. Seu trabalho foi defender, a partir dos manuscritos gregos, a canonicidade do Novo Testamento. “Não temos mais os originais da Biblia. Então, fui fazer a defesa que ela é a palavra de Deus”, explica. “Levou um longo tempo para pesquisar”, completa.

Agora doutor em Teologia, com ênfase em Psicologia Pastoral, Ferreira está apto a lecionar 16 disciplinas, que incluem Antropologia da Religião, Evangelhos, Hermenêutica, Introdução Bíblica. Ferreira leciona em instituições de Crato, Juazeiro do Norte, Iguatu e Icó. Se sentindo “realizado”, espera inspirar outras pessoas. “Fico feliz e orgulhoso da minha trajetória”, finaliza.  

(Diário do Nordeste)

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