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Conheça Kayla Oliveira, a cearense trans que nasceu entre Tamboril e Catunda e se tornou modelo nacional

“Nasci e me criei entre Tamboril e Saco Grande, no município de Catunda, interior do Ceará (próximo de Crateús). Uma região bem pequena, onde vivem cerca de seis famílias, bem interior mesmo. É tipo um povoado, onde vive a família da minha avó, o primo do meu avô e outros familiares.

Por um período também morei no Maranhão, acompanhando meu pai que era sócio de um posto de gasolina. Depois de uns cinco anos voltei para Tamboril e depois segui para Fortaleza, onde concluí meus estudos no ensino médio. No Ceará, morava com meu pai, minha madrasta e meus irmãos. 

Minha mãe faleceu quando eu tinha um ano e oito meses, vítima de câncer. Como eu ainda era um bebê, não tenho lembranças dela, mas todos da minha família dizem que nos parecemos muito. Por isso atribuo a minha beleza a ela.

Foi em Fortaleza, aos 17 anos, onde comecei a seguir em busca do meu sonho de ser modelo. Tamboril era muito pequeno, então fui para a capital, terminei o ensino médio e comecei a trabalhar de telemarketing. Paralelo a isso, procurei uma agência, ainda antes da transição (de gênero), mas os agentes já perceberam que eu não me encaixava no perfil masculino.

Pediram para eu malhar, ganhar massa para entrar nesse tal de modelo masculino, mas já sabiam que alguma coisa estava se modificando ali. Disseram então que eu precisava decidir entre uma coisa e outra.

Por um tempo deixei esse sonho de lado, então. Foquei na minha transição. Fui para São Paulo para fazer a cirurgia, colocar a prótese (nos seios)… E, por volta dos 23 anos, voltei a buscar agências de modelo. Foi quando um amigo sugeriu o concurso (The Look of The Year). Me inscrevi pela internet, fui na seleção e me tornei uma das finalistas.

Após o concurso, mesmo tendo chegado longe, não fiquei entre as três finalistas. Voltei então para a minha casa, em Tamboril. Fiquei entre o interior e Fortaleza, quando comecei a publicar fotos em meu perfil no Instagram. Minhas fotos chamaram a atenção da agência e me convidaram para o casting.

Tudo certo, fui para São Paulo e aí chega a pandemia. Voltei para casa e segui publicando minhas fotos e os olheiros foram observando meu desenvolvimento nas câmeras. Quem me trouxe de volta a São Paulo foi o maquiador Alan Jones, que queria que eu posasse para um material dele. Desde então estou aqui, agenciada pela agência Joy.

“Meu pai me olhou com admiração”

Apesar de ter sido muito bem recebida, sempre tem perrengue (a vida de modelo). Nunca é do jeito que a gente acha que é, sempre você vai ter que correr atrás.

O mais difícil pra mim é ficar longe da minha família e a pressão de ter que dar certo. Sei que tenho muita sorte, pois minha família sempre me apoiou. Tanto na transição como na profissão.

Quando fiz minhas cirurgias, comuniquei a meu pai e eu sentia medo de como ele iria reagir. Mas o que recebi foi apoio. Fui visitá-los em um Natal, com os cabelos já compridos. Foi assim a primeira vez que me viram como Kayla.

Ele me apoiou muito, mas dizia sentir medo do preconceito das pessoas comigo. O receio dele era de que eu sofresse alguma violência na rua, algum preconceito. Mas quando eu surgi como Kayla, que ele me conheceu como eu sou, ele ficou admirado. A primeira vez que ele me viu, senti que ele me olhou com admiração e isso foi muito importante pra mim.

A minha avó, então, dizia que já sabia. Ela já esperava que isso fosse acontecer (a transição de gênero). A preocupação dela hoje é com a minha profissão, com dinheiro. Ela pergunta se eu vou ter um salário fixo, se eu vou conseguir me manter.

Eu também tinha medo de como meu irmão pequeno ia me receber. Ele tem dez anos hoje, mas quando fiz a transição ele era ainda bem menor.
Meu medo era dele não me reconhecer, mas pelo contrário. Quando meu pai trocava meu nome, ele fala ‘pai, o nome dela é Kayla’. E ele faz isso com qualquer pessoa que erra.

Eu sinto falta da comida da minha avó. Ela faz um pirão de farinha que é super gostoso. Aqui em São Paulo é só prédios e prédios pra todos os lados.

O primeiro impacto quando cheguei aqui foi o frio. Eu pensava “meus Deus, o que eu tô fazendo aqui nesse frio?”. O frio queimava.

Preconceito a gente enfrenta em todo canto, mas a gente tá aí pra isso. Eu não sou aquela pessoa que se deixa abalar. Sou muito segura, sei quem eu sou, e sei que muitas pessoas estão aí para aprender. E eu tenho paciência e calma para ensinar.

Meu diferencial, mesmo no meu trabalho, é essa minha criação, meu berço, de onde eu vim… Tudo isso que me agrega, me rodeia. Minha familia e minha humildade.

Hoje o meu maior sonho é ser reconhecida pelo meu trabalho e entrar no site models.com. Claro que a Valentina Sampaio, também modelo trans cearense, é uma referência para mim, mas meu sonho de me tornar modelo veio antes da ascensão dela. Inclusive já nos cruzamos pela agência, mas ainda não tive a oportunidade de conversar mais. Eu admiro bastante as irmãs Hadid, Gigi e Bella, assim como a brasileira Gisele Oliveira.

Pretendo levar pro mundo para que outras pessoas me conheçam, se inspirem em mim, em meus familiares, e vejam que pessoas trans não são só um lado marginalizado. Que há um lado muito bom. E é algo que vai chegar para as pessoas.

O importante é acreditar em você, nunca desistir de seus sonhos, seus objetivos, ter fé em Deus e saber que a fé move montanhas.”.

(Diário do Nordeste)

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