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E se não houvesse o vídeo do DJ Ivis?

Iverson de Souza Araújo, conhecido como DJ Ivis, foi preso na tarde de ontem. No fim de semana, vieram a público imagens das agressões cometidas contra Pamella Holanda. As cenas irrefutáveis, indefensáveis, inaceitáveis criaram um raro consenso social e político. Autoridades e personalidades se posicionaram, repudiaram as agressões. Mas, e se o vídeo não existisse?

Quantos casos desses ocorrem em que não há esse tipo de registro? Quantas mulheres denunciam e passam a ser elas as julgadas? As questionadas? Como se o homem denunciado por agredir se tornasse vítima? Quantas não foram julgadas e condenadas no mesmo espaço midiático pelo qual Iverson agora passa — ele por agredir, elas por dizerem ter sido agredidas?

É raro e difícil ter provas tão cabais quanto as que Pamella apresentou. Já a violência é uma tragédia recorrente. Quantas vítimas não foram agredidas novamente ao tentarem denunciar? Não foram desacreditadas?

Mais e pior que isso: quantas vítimas não deixaram de denunciar por saberem que não acreditariam nelas, não teriam respaldo institucional, jurídico ou social? Saberem que correriam risco ainda maior.

Não estou dizendo que é desnecessário haver provas de qualquer denúncia. Estou dizendo que ausência de prova não prova a ausência de crime. E crimes que ocorrem no âmbito privado, muitas vezes entre duas pessoas, são difíceis de provar. Quando há relação afetiva, não raro com dependência econômica, é muito difícil de denunciar.

A questão não é condenar sem prova. É criar espaço de acolhida propício a vítimas denunciarem. Que haja servidores capacitados e sensíveis para ouvi-las. Que haja investigações criteriosas, que busquem as evidências a fundo. Que a voz das vítimas tenha valor e peso. Não para revogar a presunção de inocência. Mas para que, primeiro, a denunciante não seja a primeira a ser julgada. Que seja levada a sério, que o testemunho seja valorizado. Que se considere, sim, que o acusado pode ser inocente. Porém, tenha-se em mente que ali pode estar, sim, uma vítima de violência, que venceu muitos obstáculos para denunciar.

O problema que costuma ser repetitivo Brasil afora não é de homens denunciados de forma injusta. É de mulheres vítimas que não denunciam. Ou, quando denunciam, não são levadas a sério.

O poder público e a sociedade precisam criar canais e caminhos para que as vítimas denunciem, sintam-se seguras e estimuladas a apontar os crimes que ocorrem. Isso é de interesse coletivo. E poder público e sociedade precisam, também, ser capazes de acolher quem consegue denunciar.

A denúncia não encerra o caso, não condena. Mas, ela é o primeiro passo. Precisa ser. O caso não pode ser é encerrado no início, com a denunciante desacreditada e a denúncia menosprezada. Isso quando não acaba ainda antes, quando nem acusação existe.

A agressão cometida por Ivis ocorreu em 1º de junho. O caso foi tornado público no dia 11. Se não houvesse vídeo, ele estaria solto e Pamella estaria posta em dúvida.

(Redação do Blog Por Erico Firmo)

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